
História
Como a Nazaré se tornou a maior arena de ondas gigantes do mundo
17 de setembro de 2026 · 10 min de leitura · Por Surf Nazaré editors
Última atualização
Há quinze anos, ninguém surfava a Praia do Norte. Eis como uma vila piscatória portuguesa se tornou a maior arena de ondas gigantes do planeta — e como se medem realmente os recordes que se seguiram.
Ainda em 2010, a Praia do Norte não era um pico de surf. Era um troço de praia perigoso que os pescadores locais evitavam nos dias grandes, por baixo de um farol que nada tinha a ver com surf. Hoje é o palco das maiores ondas alguma vez surfadas. Essa transformação foi notavelmente rápida e é uma história que vale a pena conhecer antes de subir à mesma falésia.
O conhecimento local que ninguém fora da Nazaré tinha ouvido
Muito antes de chegar qualquer surfista profissional, os pescadores da Nazaré sabiam que a Praia do Norte era invulgarmente violenta — um sítio onde o mar se comportava de forma diferente da praia calma da vila, ali ao virar da ponta. A ligação ao que estava ao largo veio de Dino Casimiro, nadador-salvador português e antigo bodyboarder de competição, que tinha estudado o fundo do mar e acreditava que o canhão submarino canalizava a energia da ondulação diretamente para a baía. Casimiro passou anos a tentar interessar surfistas na ideia, até que o pioneiro havaiano de ondas gigantes Garrett McNamara lhe deu ouvidos.
2010–2011: a descoberta
McNamara chegou em 2010 com o parceiro de reboque Andrew Cotton e começou a surfar a Praia do Norte com apoio local, incluindo o surfista português Rodrigo Machado Silva. A 1 de novembro de 2011, McNamara surfou uma onda estimada em cerca de 23,8 m (78 pés) — na altura, a maior onda alguma vez surfada. A descida foi filmada, tornou-se viral e fez em meses o que décadas de conhecimento local não tinham conseguido: colocou a Nazaré no mapa mundial do surf. A Praia do Norte passou de desconhecida a destino do surf de ondas gigantes praticamente de um dia para o outro.
Começa a caça ao recorde
A onda de McNamara deu início a uma década de tentativas cada vez maiores, recordes oficiais e quase-recordes. Rodrigo Koxa, surfista brasileiro, bateu a marca de McNamara a 8 de novembro de 2017 com uma onda medida em 24,38 m (80 pés) — uma descida que resistiu ao processo de análise da World Surf League e se tornou a primeira onda da Nazaré a deter um recorde oficialmente reconhecido pelo Guinness sob esse escrutínio.
Maya Gabeira: do acidente quase fatal ao recorde do mundo
Nenhuma história da Nazaré pesa tanto como a de Maya Gabeira. Em outubro de 2013, a surfista brasileira sofreu um acidente terrível na Praia do Norte, quase se afogou e teve de ser reanimada na praia, seguindo-se uma longa recuperação de uma vértebra partida. Em vez de se retirar, Gabeira regressou à Nazaré, reconstruiu a carreira nas ondas gigantes e, a 11 de fevereiro de 2020, surfou uma onda de 22,4 m (73,5 pés) que constitui o recorde mundial feminino oficial — um regresso que se tornou uma das histórias marcantes da modalidade.
Sebastian Steudtner e o recorde atual
O surfista alemão Sebastian Steudtner, que se preparou durante anos especificamente para as condições da Nazaré, surfou a 29 de outubro de 2020 uma onda que o Guinness World Records homologou em 26,21 m (86 pés) — o atual recorde oficial da maior onda alguma vez surfada. Em fevereiro de 2024, Steudtner foi ainda mais longe: em parceria com a Porsche Engineering, a sua equipa usou tecnologia de medição por drone para estimar uma descida em 28,57 m (93,7 pés). Esse valor, se for confirmado, ultrapassaria o seu próprio recorde por larga margem — mas, à data deste texto, continua provisório e por homologar. Reivindicações desta dimensão demoram a verificar, e a onda ainda não passou o processo oficial de medição do Guinness. Saiba mais sobre a descida e a tecnologia de medição usada na reportagem da CNN sobre a onda.
Um recorde mais discreto: o surf a remar
Nem todos os recordes da Nazaré envolvem reboque com mota de água. O surf a remar — apanhar a onda pelos próprios meios, sem reboque — é largamente considerado a disciplina mais pura e mais difícil a esta escala. A maior onda alguma vez surfada a remar, com 19,2 m (63 pés), pertence ao americano Aaron Gold — mas foi conseguida em Jaws (Pe'ahi), no Havai, e não na Nazaré. Apesar de tudo o que a Nazaré produziu com equipamento de tow-in, ninguém remou ainda aqui para uma onda à escala de recorde — um lembrete de que nem todos os tipos de "maior" aconteceram no mesmo sítio.
Da WSL ao Guinness: como mudou a validação
Durante quase toda a última década, a World Surf League conduziu o processo de análise por trás dos Big Wave Awards e decidia, na prática, quais as descidas na Nazaré que contavam como recorde. A partir da época de 2025/26, esse papel passou para o Guinness World Records, que agora analisa de forma independente as provas de fotogrametria e homologa (ou não) cada candidatura. É um processo mais lento e mais independente do que o antigo modelo de gala de prémios, o que em parte explica por que a onda de Steudtner de 2024 continua em suspenso anos depois.
A vila por baixo da história
Vale a pena lembrar que tudo isto assenta numa antiga vila piscatória que precede esta história em séculos. A identidade da Nazaré como comunidade de pescadores — visível hoje nos barcos coloridos na praia da vila e nas senhoras mais velhas que ainda se veem por vezes de traje tradicional junto ao mercado — não foi substituída pelo turismo das ondas gigantes; ficou antes como camada por baixo dele. A mesma ponta que os pescadores tratavam com respeito receoso é hoje um miradouro para pessoas que viajam de todo o mundo para ver surfistas fazerem, de propósito, aquilo que esses pescadores passaram gerações a evitar.
O que vem a seguir
Cada época traz nova oportunidade de um recorde homologado, e o período de espera do TUDOR Nazaré Big Wave Challenge é normalmente quando acontecem as maiores tentativas. Consulte a nossa página de condições ao vivo para a classificação atual e a nossa página completa de recordes para o registo verificado.
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